IMPRENSA

 


Experimento pioneiro na Chapada Diamantina mostra que fruticultura orgânica é viável também em grandes áreas
26/04/2016

A agricultura orgânica, caracterizada pelo emprego de técnicas ambientalmente corretas e pela não utilização de agrotóxicos ou de adubos químicos solúveis, tem sido tradicionalmente realizada em pequenas áreas. A proposta de desenvolver um projeto de grandes proporções soou como um desafio para a equipe da Embrapa que encampou a ideia. Para isso, foi preciso muita criatividade, já que não seria possível lançar mão dos produtos convencionais em duas atividades fundamentais: nutrição das plantas e manejo das pragas. 

No Município de Lençóis (BA), a Embrapa está elaborando protocolos de produção, ou seja, definindo práticas adequadas de cultivo, usando a estratégia de geração e validação simultânea dos resultados. Isso significa que os melhores resultados são selecionados e reproduzidos, ao mesmo tempo, em escala maior. E o que se viu no primeiro ciclo dos experimentos foram níveis de produtividade superiores ao convencional. 

Nesse aspecto, duas culturas se destacam: a do abacaxi e a do maracujá. No caso do abacaxi, o trabalho desenvolve um sistema de produção (conjunto de todas as práticas utilizadas, desde o preparo de solo, condução do plantio, adubação, controle de pragas, até o manejo pós-colheita) para duas cultivares: a Pérola, a mais plantada no País, e a BRS Imperial, desenvolvida pela Embrapa, cuja principal característica é a resistência à fusariose, mais importante doença da cultura, que chega a causar 100% de perda da lavoura. Outra vantagem da variedade é não conter espinhos na coroa e na folha, o que facilita o manejo e reduz custos e risco de acidentes. 

A qualidade dos frutos tem surpreendido. O abacaxi Pérola tem alcaçado média de peso entre 1,6 kg e 2 kg. "É difícil até no plantio convencional apresentar essa média. Entendemos também que o clima da região, tropical semiúmido, propicia um bom desenvolvimento da cultura", sugere o pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tullio Pádua.  

E os primeiros resultados, segundo ele, são positivos, principalmente pelo fato de ter havido poucos problemas com a fusariose no Pérola. "O controle dessa doença é necessário e um desafio maior no sistema orgânico. Treinamos os funcionários da empresa para fazer o monitoramento constante e eliminar as plantas doentes, como forma de reduzir a disseminação da doença", explica. Caso aumente a incidência, que no momento está dentro do limite considerado aceitável de 5%, uma das propostas, como acrescenta o pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Zilton Cordeiro, coordenador-geral do trabalho, é utilizar a calda bordalesa, um fungicida à base de cobre permitido em pomar orgânico, para proteger o fruto.

Busca por insumos adequados 

"Como não tínhamos nenhuma informação sobre produção de abacaxi em sistema orgânico, inicialmente fizemos trabalhos para definir densidade de plantio, adubação e manejo de cobertura do solo para as duas variedades", conta Tullio Pádua sobre as dificuldades do trabalho que teve de começar da base. 

Fertilizantes, corretivos e inoculantes somente podem ser usados se permitidos pela Instrução Normativa 17, de 18 de junho de 2014, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os nutrientes podem ser supridos por meio de fontes orgânicas (adubos verdes, estercos animais, tortas vegetais ou cinzas), minerais naturais (calcários, fosfatos naturais e pós de rocha) ou da mistura de dois tipos de fontes. 

O principal desafio para os cientistas é ajustar constantemente seus conhecimentos de pesquisa às necessidades de quem está na linha de produção. "Desde o início, quando a proposta foi concebida, sabíamos que para implantar um projeto dessa magnitude era preciso ter a pesquisa como aliada", afirma Osvaldo Araújo, um dos sócios da Bioenergia Orgânicos, empresa privada que propôs a parceria com a Embrapa, pois tem como objetivo processar polpa integral de fruta para abastecer o mercado de suco. Em meados de 2011, pesquisadores e técnicos especialistas em diversas fruteiras começaram a atuar no convênio. 

Para a Embrapa, a proposta significa a possibilidade de avançar na pesquisa com orgânicos. "Encontramos um parceiro que nos colocou à disposição uma área de 80 hectares para pesquisa, que se tornou nossa grande estação experimental de fruticultura orgânica em Lençóis, com infraestrutura disponível e mão de obra", avalia Cordeiro. Ele explica ainda que associar pesquisas à produção pode trazer resultados importantes em um prazo relativamente curto.

Monitoramento ostensivo 

Entre os vários obstáculos, Zilton Cordeiro destaca os fitossanitários. A primeira grande batalha foi contra uma cochonilha que acometeu a plantação de acerola. Para o controle, foi utilizada estratégia de poda com aplicação de calda de sabão. A infestação recuou – há áreas em que passou de 25% para 1%. "Uma série de outras questões surgirá e as alternativas serão pesquisadas gradativamente. Uma que considero bem grave, por exemplo, é a cochonilha (inseto) no abacaxi. Caso surja, iremos trabalhar identificando plantas infectadas e retirando-as do pomar. Por isso, o orgânico requer um monitoramento constante, muito maior que o convencional, para impedir que a doença se alastre", acrescenta. 

As bases do sistema de produção para o abacaxi e para o maracujá estão sendo finalizadas. As necessidades de ajustes são constantes. "Não teremos um sistema de produção perfeito, assim como não há perfeição para o sistema convencional. Mas já temos a base", salienta o pesquisador. Inicialmente a área destinada aos experimentos com abacaxi era de um hectare. As mudas produzidas estão sendo transferidas para uma área de dez hectares, já com o objetivo de saída comercial. O empresário Osvaldo Araújo afirma que foram plantadas 80 mil mudas até o fim de 2015 e outras 180 mil serão plantadas até junho de 2016. 

Em relação ao maracujá, na primeira etapa, foram selecionados e recomendados dois híbridos – BRS Sol do Cerrado e BRS Rubi do Cerrado – que já compõem a área comercial de dez hectares implantada atualmente. Esse foi o resultado da avaliação dos melhores materiais genéticos para o sistema orgânico, considerando a produtividade e a resistência a doenças. Foram analisados 14 híbridos do programa de melhoramento da cultura, que envolve pesquisas da Embrapa Mandioca e Fruticultura e Embrapa Cerrados. 

Agora, o principal obstáculo para essa fruteira são os vírus, que afetam plantações do País inteiro. Para driblar o problema, os pesquisadores utilizarão plantas que entrem em produção precocemente, o que reduz o risco da atividade. Está em teste uma prática para clonar uma planta muito produtiva no campo. Dela são retiradas estacas que são enraizadas em ambiente protegido. "Quando enraizamos uma estaca, ela já está na fase juvenil. Assim rapidamente essa muda entra em processo de florescimento e frutificação. Quanto mais precoce o material, mais produzirá na ausência do vírus", explica o pesquisador da Embrapa Agrobiologia Raul Castro. 

Nos experimentos, o plantio de maracujá começou a sofrer a incidência de um ácaro transmissor do vírus da pinta-verde, que dá uma aparência depreciativa ao fruto. "Estamos tentando controle com caldas e um inseticida orgânico, o mais antigo que se tem registro até hoje, o enxofre. Quando falamos que, nos dois anos do ciclo, nunca se pulverizou, ninguém acredita", ressalta Castro. A produção da fruta chegou a 36 toneladas por hectare, equivalente a três vezes mais que a média nacional. O pesquisador lembra, no entanto, que na medida em que se amplia a área de plantio, aumenta também a pressão de pragas e doenças. As condições climáticas influenciam esse aspecto.

Os desafios da manga orgânica 

A manga também está incluída entre as culturas que se destacam no projeto. Como é de ciclo mais longo, cerca de três anos, as primeiras avaliações ainda não foram concluídas. O trabalho começou com 22 variedades. Três apresentaram maior potencial para processamento: Ubá, Palmer e Imperial, porém há expectativa de que outras variedades sejam recomendadas para essa utilidade. O pesquisador Nelson Fonseca, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, indica como um dos principais desafios em termos orgânicos a indução floral: "Dois fatores são indutores naturais – o frio e o período seco. Na região de Lençóis, há o período frio, de maio a agosto, e nessa época também praticamente não chove. A união desses dois fatores funciona como uma pré-indução. Isso pode favorecer em termos de florescimento e início de frutificação". 

Um dos problemas que a cultura vem enfrentando é o controle da formiga (boca-de-cisco ou rapa-rapa). No sistema convencional, basta um pesticida para dar conta do problema, mas, no orgânico, exige mais esforço. Já foram testadas várias alternativas, inclusive uma fita adesiva com dupla face para impedir a formiga de subir na planta e atacar a copa. Cordeiro informa que está em fase final de validação uma isca biológica: "A formiga carrega a isca para dentro do formigueiro, afetando o fungo que alimenta a formiga. Não é uma resposta tão rápida como a isca química, que existe no mercado, mas está funcionando bem". 

A área destinada à manga foi ampliada de dez para 28 hectares, também em escala comercial. Até junho de 2016 serão plantados mais 30 hectares. "Preparamos 70 mil mudas em 2015, que serão disponibilizadas para plantio em 2016", informa o outro sócio da Bioenergia Orgânicos, Evanilson Montenegro. 

Além do trabalho voltado especificamente para cada cultura, o pesquisador Zilton Cordeiro destaca três frentes de experimentos que serão a base para a continuação do trabalho: preparo e manejo do solo, independentemente da cultura; manejo integrado de pragas; nutrição com o desenvolvimento de formulações fertilizantes.

Os processos para o cultivo do abacaxi

Um conjunto de tecnologias foi avaliado até se chegar aos sistemas orgânicos de produção de abacaxi que estão sendo finalizados para as variedades Pérola e BRS Imperial. Com base no resultado da análise feita pelo Laboratório de Química do Solo da Embrapa Mandioca e Fruticultura, fez-se, de antemão, a correção do solo, com aplicação de calcário, e o preparo da área utilizando um coquetel de plantas chamadas "melhoradoras", de forma a produzir palhada para a proteção do solo e ciclagem de nutrientes. Esse coquetel, segundo o pequisador Tullio Pádua, incluiu gramíneas (sorgo e milheto) e leguminosas (feijão de porco e mucuna preta).

Em seguida, vieram as três atividades principais: definição de espaçamento de plantio, com avaliação de cinco densidades diferentes para cada variedade; análise de doses de adubação orgânica, utilizando um composto chamado bokashi, que é enriquecido com microrganismos benéficos às plantas e emprega vários resíduos e/ou produtos (no caso utilizaram-se esterco bovino curtido, torta de mamona, pó-de-rocha silicatada, óxido de magnésio, micronutrientes e solo); e a avaliação da influência das plantas melhoradoras na produtividade. As definições foram baseadas nas análises feitas nos laboratórios de Pós-Colheita e de Química do Solo do centro de pesquisa. 

Pádua explica que paralelamente estão sendo analisados diferentes sistemas e lâminas de irrigação. Estão sendo comparadas cinco lâminas para calcular a necessidade hídrica de cada variedade para produzir bem. Em outra frente, a equipe estuda a viabilidade do uso do mulching, uma espécie de lona plástica, tecnologia que pode ser usada em cultivo orgânico para controle de plantas daninhas e serve também como barreira física à transferência de calor e vapor de água entre solo e atmosfera. 

Há ainda avaliações específicas para cada uma das variedades, como épocas de plantio e tamanho de muda no caso do Pérola. "Essa variedade é suscetível ao florescimento natural, principalmente quando a temperatura abaixa. E o florescimento precoce é prejudicial porque o fruto fica pequeno e a lavoura desuniforme. Então é preciso definir o tamanho de muda e a época de plantio para reduzir os riscos de esse fenômeno acontecer e ocasionar prejuízo ao produtor", explica Pádua. Já em relação ao BRS Imperial, menos suscetível ao florescimento natural, há um trabalho de avaliação das idades de indução floral artificial, visando a definir a idade da planta adequada para a realização dessa prática que permita a produção de frutos de maior tamanho e qualidade. 

No que se refere ao controle de pragas, Zilton Cordeiro acrescenta que foi seguida boa parte das recomendações trazidas do sistema convencional, iniciando pela produção de mudas sadias e pelo monitoramento periódico do plantio com eliminação de plantas doentes. Durante a fase de florescimento, recomenda-se a pulverização com produtos à base de cobre, aceitos no sistema orgânico, para controlar infecções por Fusarium nos frutos.

Parceria com produtores locais

Dentro dos estudos realizados pela Bioenergia Orgânicos, a região do interior da Bahia foi escolhida por causa do clima, água e solo mais adequados à fruticultura orgânica, com disponibilidade de terras virgens. Foram compradas três fazendas em Lençóis que totalizam 3,5 mil hectares. Dos 80 hectares destinados aos experimentos da Embrapa, já estão implantados 22 hectares de manga, dez de maracujá, dez de abacaxi (essas três primeiras áreas já para escala comercial), três de Spondias (família do umbuzeiro e do umbu-cajazeiro), cinco de acerola, três de goiaba, 3,5 de citros, além de um hectare para experimentos de solos. Esse material integra a Unidade de Pesquisa de Produção Orgânica (UPPO), na fazenda Ceral Marimbus. Há ainda uma área de viveiros de 2,5 hectares. Também foram instalados um viveiro de mudas e uma estufa com telado antiafídeo para citros. 

A previsão é que a indústria de processamento de polpa integral esteja funcionando em 2017 com capacidade para processar 40 toneladas de frutas por dia em um turno. A produção virá das fazendas da empresa, mas a ideia é também envolver produtores da região, como forma de promover o desenvolvimento local. 

De acordo com o planejamento, a Bioenergia produzirá 50% da capacidade de processamento da indústria e os outros 50% virão de outros produtores. "A ideia é desenvolver parceiros produtivos focados na agricultura familiar. Vamos fornecer a muda, o adubo a preço de custo e garantir a compra em contrato", explica Araújo. Ele acrescenta que o desenvolvimento desses parceiros – selecionados a princípio em Lençóis e nos municípios em um raio de 100 quilômetros da indústria, como Bonito, Utinga, Andaraí e Piatã – acontecerá quando a empresa tiver as mudas para distribuição. "Devemos iniciar com duas culturas – o maracujá em consórcio com a manga –, entre um e três hectares para cada produtor. Enquanto as mangueiras crescem nos dois primeiros anos, o produtor tira duas safras de maracujá. Assim, o custo será reduzido e ele terá uma renda no fim do primeiro ano", explica.  

A inclusão social se dá também pelo emprego de mão de obra local. Os sócios informam que 80% dos colaboradores do projeto provêm de duas comunidades quilombolas próximas. 

Alessandra Vale 
Embrapa Mandioca e Fruticultura 

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

 

 


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